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Artigos / Matérias

Planejamento urbano e qualidade dos espaços orientam a relação entre verticalização e densidade

24/07/2026
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Especialistas apontam que o adensamento urbano depende da integração entre mobilidade, infraestrutura e desenho urbano

Durante décadas, a verticalização passou a ocupar o centro dos debates sobre o crescimento das cidades brasileiras. Para parte da população, edifícios altos podem ser sinônimo de trânsito, sombreamento excessivo e perda de qualidade urbana. No entanto, especialistas defendem que essa associação simplifica um tema muito mais complexo, já que a altura das edificações, por si só, não determina se uma cidade será mais ou menos densa, eficiente ou sustentável.

O desafio das cidades atualmente é justamente compreender como o adensamento pode contribuir para cidades mais compactas, acessíveis e diversas. Sendo assim, o desenho urbano, a infraestrutura disponível, o uso misto e o planejamento orientado pela mobilidade passam a ser fatores tão ou mais importantes do que o número de pavimentos de um edifício.

Para discutir esse cenário, o diretor associado de projetos da Königsberger Vannucchi Arquitetos, João Paulo Payar, e o Head de Urbanismo e Arquitetura Vertical da Talls Solutions, Luís Henrique Bueno Villanova, participaram de um Meets, encontro online e exclusivo para associados da ADIT Brasil, e analisaram como o país pode evoluir de um modelo baseado apenas em índices urbanísticos para uma lógica que priorize o planejamento urbano e a qualidade dos espaços.

Verticalizar versus adensar

Embora frequentemente utilizados como sinônimos, verticalização e densidade representam conceitos distintos. Luís Henrique Bueno Villanova, que também é vice-presidente do Conselho de Urbanismo Vertical (CVU) Brasil, explica que este é um termo bastante utilizado no Brasil para descrever a transformação da paisagem urbana por meio da construção de edifícios cada vez mais altos. Segundo ele, historicamente esse processo surgiu como uma resposta à necessidade de concentrar pessoas em áreas de maior demanda, impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico.

“Se a gente for pegar a origem da construção dos edifícios altos, eles passaram a existir para promover justamente a densidade. A partir dos elevadores e da tecnologia construtiva, passou-se a possibilitar um aumento de densidade, com o empilhamento de pavimentos que essas tecnologias proporcionaram. Isso promoveu que locais com alta demanda passasse a comportar mais pessoas trabalhando e morando”, detalhou. 

Luís Henrique Bueno Villanova, Head de Urbanismo e Arquitetura Vertical da Talls Solutions.

No entanto, ele ressalta que edifícios altos são apenas um dos fatores capazes de aumentar a densidade urbana. O tamanho das unidades, a quantidade de apartamentos, o número de moradores e até mesmo os fluxos diários de deslocamento influenciam diretamente essa equação.

“Outro cálculo em que muitas pessoas questionam se uma cidade é densa ou não, é porque a gente contabiliza densidade considerando onde as pessoas moram, mas existem certos deslocamentos que promovem uma densidade enorme, só que depois de um certo horário esvazia”, observa.

João Paulo Payar reforça essa diferenciação entre densidade e verticalização. “Quando a gente fala de densidade a gente fala de métricas, é uma unidade de medida. Você mede a quantidade de pessoas e edificações em uma determinada área. Já a verticalização é uma tipologia construtiva, são edifícios altos e que podem contribuir para a densidade urbana, mas não necessariamente”, relata o diretor da KV Arquitetos.

Payar lembra que diversas cidades consideradas referências internacionais apresentam altas densidades mesmo mantendo skylines predominantemente horizontais. Barcelona, Paris, Copenhague e Viena são alguns exemplos em que edifícios relativamente baixos convivem com intensa ocupação urbana. Por outro lado, cidades como Singapura, Vancouver, Tóquio e Curitiba adotam edifícios mais altos, mas combinados com sistemas de mobilidade eficientes, infraestrutura robusta e planejamento urbano consistente.

O consenso entre os especialistas é que o debate não deve se concentrar apenas na quantidade de pavimentos, mas na qualidade da ocupação urbana.

Adensamento inteligente e planejamento urbano 

Grande parte dos desafios enfrentados pelas cidades brasileiras tem origem na forma como o planejamento urbano evoluiu nas últimas décadas. Segundo Villanova, a partir da década de 1960 os planos diretores passaram a substituir uma lógica baseada no desenho urbano por um conjunto de índices e coeficientes urbanísticos.

Um dos principais instrumentos desse modelo é o coeficiente de aproveitamento, índice que determina quanto pode ser construído em determinado terreno.

“O coeficiente representa o quanto a infraestrutura comporta e quanto se deseja adensar determinada região. Mas, muitas vezes, ele acaba sendo distribuído de maneira muito semelhante por diferentes áreas da cidade, independentemente da infraestrutura disponível”, explica.

Na avaliação do especialista, essa homogeneização contribui para espalhar edifícios altos pelo território, em vez de concentrar o crescimento em áreas mais bem servidas por transporte, comércio e equipamentos públicos.

Além disso, ele destaca que o coeficiente controla o potencial construtivo, mas não necessariamente a densidade populacional. Outro problema é que o planejamento frequentemente considera uma ocupação idealizada da cidade, supondo que quadras inteiras serão incorporadas e desenvolvidas de forma uniforme, mas isso raramente se concretiza.

Payar acrescenta que outros parâmetros também influenciam diretamente a forma dos edifícios. “Acho que além do coeficiente tem também questões de afastamento, recursos que garantem a qualidade ambiental inclusive, que eu acho que é um ponto bastante importante para edificações altas”, ressalta.

Na visão dos especialistas, os caminhos para um adensamento mais inteligente estão na combinação entre diversidade de usos, proximidade entre atividades cotidianas e um planejamento orientado pela qualidade do espaço urbano.

Payar cita como referência conceitos que vêm sendo discutidos desde Jane Jacobs até propostas mais recentes, como a Cidade de 15 Minutos, defendida por Carlos Moreno. Essas abordagens valorizam bairros capazes de reunir moradia, trabalho, comércio, serviços e lazer em pequenas distâncias.

“Mais do que quantidade, precisamos falar de qualidade. O uso misto faz com que as pessoas ocupem a cidade em horários diferentes, reduz deslocamentos, gera mais segurança e cria uma dinâmica urbana muito mais positiva”.

João Paulo Payar, diretor associado de projetos da Königsberger Vannucchi Arquitetos.

Segundo o diretor da Königsberger Vannucchi Arquitetos, diversos planos diretores mais recentes já começam a incentivar esse tipo de ocupação, superando antigos zoneamentos que separavam essas funções urbanas.

Essa lógica também orienta projetos desenvolvidos pelo escritório, como o Eixo Platina e o Brascan Century Plaza, em São Paulo, que integram diferentes usos em um mesmo empreendimento. Em outro projeto, no Parque Una de São José dos Campos, a verticalização foi utilizada para garantir melhores visuais, maior distância entre edifícios e um térreo totalmente conectado ao espaço público.

“A verticalização pode estar ligada ao adensamento, mas ela também atende a outras demandas urbanas, como qualidade ambiental, integração dos espaços e valorização da paisagem”, menciona Payar. 

Villanova observa que o Brasil ainda associa edifícios altos ao aumento do trânsito justamente porque, historicamente, o crescimento urbano ocorreu de forma espalhada. Como contraponto, ele cita exemplos internacionais em que edifícios de grande altura são implantados junto a estações de transporte coletivo e, muitas vezes, sequer oferecem vagas de garagem.

“Aqui, quanto mais alto o edifício, mais vagas de garagem ele tem. Isso acontece porque a cidade foi espalhada. A pessoa mora em um lugar, trabalha em outro, leva o filho à escola em outro”, explica o Head de urbanismo e arquitetura vertical da Talls Solutions. 

O avanço da verticalização sem uma estratégia de concentração do crescimento urbano também contribui para o espraiamento das cidades. Na avaliação de Payar, esse processo amplia os deslocamentos, aumenta a demanda por infraestrutura em áreas periféricas e favorece o esvaziamento relativo das regiões centrais. 

Desafios presentes em cidades como Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que hoje desenvolvem iniciativas para estimular a reocupação de seus centros urbanos. Assunto que será abordado no ADIT Cidades, fórum que abordará a regeneração urbana no Brasil, de 11 a 13 de novembro.

Para Villanova, o próximo passo do planejamento urbano brasileiro é abandonar uma lógica baseada exclusivamente em regras rígidas e migrar para diretrizes de desempenho. Ou seja, em vez de estabelecer apenas recuos, coeficientes ou taxas de ocupação, o planejamento passaria a definir objetivos relacionados à qualidade do espaço público. +

;+Segundo ele, esse modelo permite maior liberdade para arquitetos e incorporadores proporem soluções capazes de atender aos objetivos urbanos sem ficarem presos a fórmulas padronizadas.

Payar concorda que o foco precisa estar na experiência urbana proporcionada pelos empreendimentos. Com isso, o debate deixa de ser simplesmente sobre construir mais alto e passa a ser como construir cidades que utilizem melhor sua infraestrutura, reduzam deslocamentos, fortaleçam a vida urbana e ofereçam mais qualidade para quem vive nelas. 

  • Graziela França – Head de Contéudo da ADIT Brasil
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