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Artigos / Matérias

Turismo esportivo ganha espaço no desenvolvimento de novos destinos e produtos turísticos

21/08/2026
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Impulsionado pela busca por saúde, bem-estar, longevidade e experiências, o turismo esportivo começa a ganhar espaço também como ferramenta para reduzir a sazonalidade, estimular a recorrência de visitantes e agregar valor aos ativos imobiliários. 

Para Renê Rocha, COO da All Wert, o mercado vive um “ponto de inflexão” diante da mudança na relação das pessoas com esporte, saúde e wellness. Segundo ele, o movimento já ultrapassou o estágio de tendência e passou a fazer parte da realidade do consumidor.

“Projetos que estão sendo desenvolvidos hoje e que não estão sendo pensados com a questão do wellness, da longevidade, do esporte, já nascem atrasados.”

Na avaliação do executivo, o esporte precisa ser considerado desde a concepção dos projetos, funcionando como uma âncora de desenvolvimento e não apenas como uma amenity. A tendência é que destinos capazes de oferecer infraestrutura esportiva, experiências de bem-estar e oportunidades de desconexão ganhem relevância entre consumidores que buscam equilibrar uma rotina cada vez mais intensa.

Essa visão também está presente na concepção do ALL Resort, que tem o esporte como um dos pilares de sua proposta. O empreendimento reúne modalidades como golfe, tênis, padel, pickleball, beach tennis, surf, natação e corrida. Para chegar ao modelo, a empresa buscou referências internacionais, literatura especializada e consultorias nas áreas de esporte, wellness e longevidade.

A estratégia mostra como a vocação esportiva pode contribuir inclusive para a criação de novos destinos turísticos. Para Rocha, a combinação entre infraestrutura e experiências pode transformar determinadas modalidades em verdadeiras âncoras de desenvolvimento.

Esporte como vocação do destino

A relação entre esporte e território também está no centro do trabalho desenvolvido pelo Grupo Carnaúba. Para Eduardo Juaçaba, o mercado vive um momento de expansão, mas cada região precisa identificar quais modalidades dialogam melhor com suas características naturais e culturais.

“Cada região tem a sua própria vocação. E aí, no nosso caso em particular, que começa com o kite, a gente quer com o tempo ampliar para outras modalidades, não pode só ficar concentrado no kite.”

No caso do Grupo Carnaúba, localizado em uma região marcada pelos esportes de vento, o kitesurf funciona como ponto de partida para o desenvolvimento de produtos turísticos. A estratégia já incorporou outras atividades, como tênis e passeios a cavalo, ampliando as possibilidades de uso do destino.

Juaçaba destaca que o esporte já aparece como um dos principais elementos da abordagem comercial do empreendimento. “O esporte já é o grande, talvez, motor para deslanchar uma conversa de uma venda. Então, ele já começa na largada.”

O executivo, no entanto, ressalta que a expansão desse modelo para outras regiões exige maturidade e atenção às características de cada território. Em vez de replicar um mesmo produto, a tendência seria identificar a vocação local e construir uma proposta a partir dela.

Essa lógica também orientou as referências utilizadas pelo grupo. A inspiração veio de diferentes experiências internacionais, especialmente de destinos de montanha e estações de esqui nos Alpes e nos Estados Unidos. Além da estrutura esportiva, esses empreendimentos oferecem atividades alternativas durante períodos de menor demanda.

A estratégia é particularmente relevante para destinos cuja atividade principal depende de condições climáticas. No caso do litoral cearense, por exemplo, períodos de menor incidência de vento podem limitar a prática do kitesurf. A diversificação de atividades permite criar alternativas de consumo e reduzir os impactos da sazonalidade.

Do evento à permanência

Para Marcelo Leifheit, diretor de pós-venda da Laghetto, o Brasil já apresenta sinais de amadurecimento na organização de eventos esportivos, mas ainda existe espaço para melhorar a conexão entre esporte e turismo.

O potencial é expressivo. Segundo dados citados pelo executivo, levantamento da Ticket Sports aponta que apenas no primeiro semestre de 2026 foram realizados mais de 1.400 eventos esportivos no país, com aproximadamente 940 mil participantes. As corridas de rua representaram mais de 70% do calendário.

O desafio, segundo Leifheit, é fazer com que esses eventos ultrapassem a lógica da competição e passem a gerar permanência e consumo turístico. “Ainda falta mais conexão e envolvimento com o trade turístico para vender um período maior de estadia.”

Um exemplo citado é a Meia Maratona da Laghetto, que chega à quinta edição com a proposta de integrar a prática esportiva aos principais atrativos de Gramado e Canela. A iniciativa demonstra como uma competição pode ser utilizada para estimular a circulação dos visitantes pelo destino.

A lógica também pode ser aplicada ao desenvolvimento de produtos hoteleiros específicos. Para Leifheit, o atleta amador que retorna diversas vezes ao ano para treinar pode representar uma oportunidade ainda pouco explorada pelo setor.

“O atleta amador que volta 3 ou 4 vezes por ano para treinar vale mais que o que vem uma vez para competir.”

Nesse modelo, o atleta deixa de ser apenas um participante de evento e passa a integrar uma comunidade recorrente de visitantes. A presença de acompanhantes amplia ainda mais o potencial econômico, ao aumentar o consumo de hospedagem, alimentação, lazer e outros serviços.

Uma ferramenta contra a sazonalidade

A capacidade de distribuir demanda ao longo do ano aparece como um dos principais atributos do turismo esportivo. Em destinos tradicionalmente concentrados em determinados períodos, competições, treinamentos e comunidades esportivas podem criar novos motivos para viajar em épocas de menor movimento.

Segundo Leifheit, o esporte está entre as ferramentas capazes de estimular ocupação durante a semana e nos períodos de baixa temporada, especialmente quando existe uma estratégia integrada entre organizadores, hotelaria, poder público e demais integrantes do trade.

Nesse sentido, a infraestrutura permanente também ganha importância. Rotas sinalizadas para trail running, quadras de beach tennis e padel, bases náuticas, ciclovias e pistas de atletismo podem funcionar como ativos turísticos que permanecem disponíveis mesmo fora dos grandes eventos.

Outro ponto destacado pelo executivo é a necessidade de planejamento de calendário. A divulgação antecipada de eventos permite que hotéis e demais empresas do destino criem produtos específicos, com tarifas para atletas e acompanhantes, check-out tardio, serviços de alimentação, fisioterapia e espaços para armazenamento de equipamentos.

Comunidades que movimentam destinos

Mais do que atrair visitantes pontualmente, o turismo esportivo pode criar comunidades com alto grau de engajamento. Para Leifheit, essa característica representa uma oportunidade importante para destinos e empreendimentos.

“Qualquer tipo de negócio que possui uma comunidade engajada é um sinônimo de um canal de venda/distribuição barato e recorrente.”

A comunidade esportiva pode atuar como vetor de divulgação do próprio destino, enquanto a recorrência dos praticantes ajuda a construir uma relação de longo prazo com o território. Nesse cenário, o esporte deixa de ser apenas uma atividade realizada durante a viagem e passa a integrar a identidade do destino.

É justamente essa transformação que aproxima turismo esportivo e desenvolvimento imobiliário. De acordo com Leifheit, no segmento de multipropriedade e no mercado imobiliário, o principal impacto do esporte não necessariamente está em um aumento imediato do preço de venda, mas na criação de um motivo recorrente para o proprietário retornar.

Quando o empreendimento consegue estabelecer uma conexão entre o esporte, a comunidade e o destino, a aquisição passa a estar associada não apenas à propriedade de um ativo, mas à possibilidade de vivenciar aquela experiência repetidamente.

Mais do que grandes eventos

Embora competições de grande porte tenham capacidade de gerar forte impacto econômico, os três executivos apontam para um movimento mais amplo, que envolve modalidades diversas e comunidades menores, porém recorrentes.

Corridas, ciclismo, esportes de raquete, surfe, esportes náuticos, golfe e atividades equestres podem assumir papéis diferentes de acordo com a vocação de cada destino. A estratégia, portanto, não necessariamente depende da criação de um grande evento, mas da construção de um ecossistema capaz de manter a atividade esportiva funcionando ao longo do ano.

As experiências internacionais citadas pelos entrevistados mostram diferentes caminhos. Destinos como Mallorca e Girona utilizaram o ciclismo para ampliar a temporada turística e criar comunidades ligadas à modalidade. Whistler transformou a infraestrutura de esportes de inverno em um ativo para atividades de verão. No Brasil, exemplos como Saquarema e Florianópolis demonstram como surfe, triatlo, maratonas e outros eventos podem contribuir para fortalecer a identidade turística dos destinos.

Para que esse potencial seja convertido em desenvolvimento de longo prazo, porém, ainda existem desafios relacionados à infraestrutura, planejamento e governança. Como resume Leifheit, “não faltam eventos esportivos no Brasil para serem explorados”. O próximo passo é fazer com que eles deixem de representar apenas bons fins de semana isolados e passem a integrar uma estratégia permanente de desenvolvimento turístico.

Nesse processo, o esporte ganha uma nova função: além de promover saúde, lazer e bem-estar, pode ajudar a criar destinos, movimentar a economia em períodos de baixa demanda, estimular a recorrência e até orientar a concepção de novos empreendimentos turísticos e imobiliários.

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