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Especialistas apostam em bairros planejados mais integrados, caminháveis e conectados às pessoas
All Resort, em Porto Belo (SC)
Mudanças no comportamento da população exigem mais elementos ligados à qualidade de vida e pertencimento
Durante muito tempo, escolher onde morar significava comparar localização, metragem e infraestrutura. Hoje, a lista de prioridades ganhou novos elementos, como ruas onde seja possível caminhar, praças, áreas verdes, comércio e espaços que favoreçam encontros. Além de adquirir um imóvel, cresce o desejo de viver em lugares que promovam qualidade de vida e fortaleçam o senso de comunidade.
Essa transformação tem levado urbanistas e desenvolvedores a repensarem a forma como os bairros são planejados. Especialistas apontam que a mudança de comportamento vinha sendo construída ao longo dos últimos anos, mas ganhou ainda mais força após a pandemia de Covid-19.
O período de isolamento fez com que muitas pessoas passassem a valorizar mais o contato com a natureza, a convivência social e o tempo vivido fora de casa. Para o mercado imobiliário, isso significou uma revisão de prioridades, em que espaços de convivência deixaram de ser apenas elementos complementares dos projetos e passaram a ocupar posição central na experiência urbana.
Para Renê Rocha, COO da All Wert, essa mudança reflete uma tendência observada em diferentes partes do mundo. “Cada vez mais a gente vê essa busca por momentos de qualidade, interação com o meio ambiente, interação com outras pessoas, e o espaço público é o melhor lugar que a gente tem para isso”, afirma.
Segundo ele, a pandemia despertou uma reflexão sobre a importância da vida ao ar livre e dos espaços compartilhados. “À medida que as pessoas foram saindo de casa, elas começaram a perceber que esse contato humano, com a natureza, com o esporte, eram cada vez mais importantes. E isso nos chama atenção justamente para melhorar esses espaços públicos”, completa.
A percepção é compartilhada por Fabiano de Marco, sócio da Idealiza Cidades. Para ele, a valorização de bairros mais caminháveis também está relacionada ao desgaste provocado por décadas de crescimento das cidades voltado ao automóvel.

“As pessoas viveram décadas de aspiração por um carro, se deslocaram cada vez mais de carro e perceberam que é melhor pra saúde – já que o ser humano é sociável e depende de iluminação e de prática de esportes para levar uma vida saudável – que distâncias curtas e caminháveis são um estilo de vida melhor”, comenta.
Fabiano de Marco, sócio da Idealiza Cidades
Além da preocupação com a saúde, a rotina das grandes cidades também influenciou essa mudança. O aumento do tempo gasto no trânsito reduziu as horas disponíveis para atividades pessoais, tornando a proximidade entre moradia, comércio, trabalho e lazer um diferencial cada vez mais valorizado. “Uma hora a mais ou a menos disponível para a pessoa cuidar da saúde, dos filhos, ser marido, ser trabalhador, está fazendo diferença na vida mais corrida de hoje”, observa Fabiano.
Espaços públicos como destino
Essa nova forma de enxergar a cidade tem impulsionado conceitos como uso misto, caminhabilidade e cidade de 15 minutos – modelo urbanístico que propõe reunir as principais necessidades do dia a dia a uma curta distância da residência, reduzindo a dependência do automóvel e incentivando deslocamentos a pé ou de bicicleta.

Parque Una Pelotas (RS) 
Projeto do Eixo Esplanada
Na prática, isso significa criar bairros onde seja possível morar, trabalhar, estudar, consumir e acessar áreas de lazer sem precisar realizar longos deslocamentos.
Segundo o Manual de Bairros Planejados, desenvolvido pela ADIT Brasil, o principal objetivo desse tipo de empreendimento é justamente melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para isso, o planejamento precisa ir além da implantação de infraestrutura ou da oferta de diferentes produtos imobiliários, criando ambientes capazes de atender às necessidades da população e acompanhar as transformações econômicas e sociais ao longo do tempo.
Essa lógica representa uma mudança importante em relação ao urbanismo que predominou durante boa parte do século XX, quando as cidades passaram a separar rigidamente áreas residenciais, comerciais e de serviços. Hoje, a tendência é justamente aproximar essas funções para tornar a rotina mais prática e estimular a ocupação permanente dos espaços urbanos.
Essa mudança de mentalidade também altera a forma como ruas, praças e parques são concebidos. Para Hugo Serra, sócio-fundador da Strato Urbanismo, o desafio atual não é apenas construir espaços públicos, mas criar ambientes onde as pessoas desejem permanecer.

“A transformação de espaços públicos em lugares de convivência começa por uma mudança de perspectiva: deixar de projetar apenas para a circulação de pessoas e passar a projetar para a permanência. Um espaço urbano de qualidade precisa oferecer conforto, sombra, segurança, diversidade de usos e oportunidades de encontro”.
Hugo Serra, sócio-fundador da Strato Urbanismo
Segundo ele, quando áreas verdes, comércio de proximidade, espaços esportivos e ambientes destinados a eventos comunitários passam a fazer parte da rotina da população, o espaço público deixa de ser apenas uma área de passagem e passa a construir identidade e pertencimento.
Essa lógica também influencia o desenho dos novos bairros planejados. Em vez de separar rigidamente áreas residenciais, comerciais e de lazer, cresce a aposta em empreendimentos mais abertos e integrados ao tecido urbano.

“Quanto mais aberto, mais integrador será, e quanto mais misturado, melhor será. Ou seja, misture classes, tipologias, residência, comércio, coloque tudo junto, porque isso sim vai trazer vida ativa para aquele bairro”.
Renê Rocha, COO da All Wert
Para Hugo Serra, modelos excessivamente segmentados acabam reduzindo a vitalidade urbana. “Bairros exclusivamente residenciais tendem a perder vitalidade ao longo do dia. Quando há uma combinação equilibrada entre moradia, serviços, lazer, trabalho e comércio, cria-se uma dinâmica urbana mais sustentável e segura”, afirma.
Na avaliação de Renê Rocha, os bairros planejados cumprem seu papel quando deixam de funcionar como espaços isolados e passam a beneficiar também o entorno.
“O bairro planejado é uma ferramenta muito potente porque transforma não só a qualidade de quem mora lá dentro. À medida que abre as suas portas para as comunidades vizinhas, elas começam a melhorar. Você coloca perto dessas comunidades emprego, lazer de qualidade e espaços públicos que muitas vezes não tinham. Isso faz uma integração da sociedade como um todo”, afirma.
Os conceitos que vêm transformando o urbanismo podem ser observados em diferentes empreendimentos brasileiros. Projetos como o Parque Una, em Pelotas (RS), Uberlândia (MG) e São José dos Campos (SP); o All Resort, em Porto Belo(SC); e o Eixo Esplanada, em Vargem Grande Paulista (SP), incorporam, em diferentes escalas, princípios como caminhabilidade, uso misto, integração entre espaços públicos e privados e valorização da convivência comunitária.
Esses e outros bairros de referência revelam além de tendências arquitetônicas, uma mudança de perspectiva sobre o planejamento e desenvolvimento urbano. Essa é uma das temáticas que será abordada durante a 16ª edição do COMPLAN, principal seminário sobre comunidades planejadas, loteamentos e desenvolvimento urbano do Brasil, que acontecerá de 28 a 30 de outubro, em Balneário Camboriú (SC). Saiba mais no site do evento.
- Graziela França – Head de Conteúdo da ADIT Brasil
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