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Construção de carreira de Fabiana Leite e a jornada profissional em uma das maiores empresas de intercâmbio de férias do mundo
Antes de se tornar uma das principais executivas da RCI na América Latina, Fabiana Leite acompanhou de perto a transformação de um mercado que ainda buscava reconhecimento e credibilidade no Brasil.
Com mais de 25 anos de trajetória na empresa, ela participou de momentos decisivos para a consolidação da propriedade compartilhada, viveu uma experiência internacional que marcou sua carreira e ajudou a construir estratégias que ampliaram o acesso de milhares de pessoas ao universo das férias compartilhadas.
Nesta entrevista, Fabiana relembra os desafios, as decisões que moldaram sua jornada profissional e as lições aprendidas ao longo de mais de duas décadas em uma das maiores empresas de intercâmbio de férias do mundo.
Confira a seguir a íntegra da entrevista conduzida por Selefe Gomes, superintendente de turismo da ADIT Brasil:
Você está na RCI há mais de duas décadas, certo? O que fez você construir uma trajetória tão longa dentro da mesma empresa sem perder o senso de evolução profissional?
Nós estamos falando de um mercado de 25 anos atrás. Obviamente o mercado não era assim, não era grande, mesmo dentro da RCI, era super pequeno. Não me lembro agora quantos hoteis a gente tinha afiliado, mas com certeza, não passavam de 50, era um número bem baixo. Até que a gente abre o nosso escritório no Uruguai, em 2005, o nosso call center. Por quê? Existiu a necessidade de unificar as operações da América do Sul. A gente tinha antes um call center em cada país e em 2005 a gente abre o nosso escritório no Uruguai.
Algumas pessoas foram convidadas e eu fui uma delas, fiquei lá seis anos trabalhando com o marketing. Então aí já era um marketing muito mais voltado à ativação do cliente. E aí você percebe o quanto realmente é relevante a posição da RCI dentro dessa indústria, porque você começa a apresentar o mundo de possibilidades, além daquele produto original que a pessoa comprou.
‘Ah, mas isso é muito claro porque isso é explicado na sala de vendas.’ Sim, a RCI entra realmente como valor agregado na sala de vendas, mas você fazer a movimentação para que esse cliente realmente conheça todos os destinos que a gente tem e viaje cada vez mais através da RCI, pense na RCI sempre quando for viajar, realmente era um desafio.
Na época era uma base de 15.000 clientes brasileiros. Tinha os outros da América Latina e da América do Sul, mas o Brasil ainda não era um mercado que se destacava. Esse crescimento do Brasil começa uns bons anos depois. E quando eu voltei para o Brasil em 2011, já era um mercado totalmente diferente, já se via essa expansão como promissora. Porque até então, há tempos atrás, o que a gente fazia muito era educar o mercado que sim, é uma maneira eficiente e inteligente de viajar, e que sim, os produtos que existiam eram de verdade, porque naquela época a gente teve realmente muitos problemas de credibilidade, muitos, muitos, e esse aí nunca deixou de existir, sempre esteve lá.
Então a gente tinha dois conflitos, o primeiro era posicionar o mercado de propriedade compartilhada, que ninguém conhecia e o segundo era para as pessoas que já tinham escutado falar, mudar a visão, porque realmente a gente não tinha credibilidade nenhuma.
Então, quando eu voltei em 2011, já era um mercado que já estava em crescimento, já começava a expansão da propriedade compartilhada, ainda muito com timeshare, depois de uns anos que entrou a multipropriedade. Então quando você me pergunta o que me faz ficar numa empresa tantos anos, é isso, é entender que de alguma maneira até hoje a gente continua fazendo alguma coisa diferente e promovendo essa diferença na vida das pessoas, tanto dos empreendedores como dos clientes finais que acabam viajando com a RCI.
Hoje a gente não tem só um papel de consolidado de ser a maior empresa de intercâmbio, mas temos muita responsabilidade. Você não pode estar sempre no primeiro lugar sem ver o que está acontecendo no mercado e estar atualizada no que você está fazendo. Essa dinâmica do negócio me fez permanecer na empresa e de verdade, se passaram os 25 anos, eu nem vi passar os 25 anos. Então, foi um crescimento contínuo, e até hoje eu acho que a gente entrega muito valor em tudo que a gente constrói junto com os empreendedores.
Nossa, perfeito. Essa parte de quando você viveu no Uruguai, eu imagino que para Fabiana como profissional é uma grande mudança ir para outro país, construir essa estabilidade da empresa. Como foi esse momento na sua carreira?
Esse foi um momento decisivo, sem dúvida, porque o conselho ia terminar a operação aqui no Brasil e me fizeram um convite, na verdade, eu nem sabia muito bem o que eu ia fazer ao certo.
Por outro lado, é um país que, apesar de falar outra língua, era perto do Brasil, então eu pensava que o máximo que pode acontecer é não dar certo e em 2 horas de voo, eu tô de volta na minha casa. Ou seja, tinha a vontade realmente de fazer alguma coisa diferente e se você não aproveita essas oportunidades que a vida te dá para fazer uma coisa diferente, depois, não sei se eu faria, pode ser que sim, pode ser que mudaria de país, enfim, mas era muito mais fácil. Porque tinha uma parte muito importante de crescimento e de conhecimento que eu sabia que ia agregar para mim, tanto como pessoa até mais que em carreira. Isso foi um dos pontos principais.
Além dessa mudança, teve algum outro momento decisivo para sua carreira, em que você viu o peso da decisão e da trajetória ao longo dos 25 anos?
Vários, foram muitos momentos, muitos momentos na minha trajetória inteira. Mesmo quando eu voltei para o Brasil, eu já tinha construído uma carreira no Uruguai, onde eu era responsável pelo marketing de maneira geral da América Latina, quando falam: ‘você vai voltar para o Brasil, claro, pela RCI, mas você volta com o Brasil. Então, você deixa de ter tudo o que você tem e se responsabiliza pelo médio.’
E aí, em uma primeira hora que eu parei e falei: ‘Qual que é meu objetivo? Hoje meu objetivo é voltar para o Brasil, então eu prefiro dar dois passos para trás e ver o que vai acontecer, principalmente porque eu já vou estar na minha casa’. E realmente foi a decisão mais assertiva que eu tive, mesmo porque eu tinha um filho, meu filho nasceu no Uruguai, já tinha um ano e meio e para mim era muito difícil ver meu filho crescer longe das duas famílias. Era uma coisa que para mim não dava porque a família sempre foi muito importante na minha vida, ter esse apoio familiar sempre foi muito importante.
E era uma decisão que já estava tomada. Então, quando eu tomo a decisão de vir para o Brasil, você tem que dar dois passos para trás e muitas vezes durante a carreira inteira você tem que olhar e dar os dois passos para trás para depois dar 50 para frente. E às vezes esse 50 para frente que você vai dar não é nem na mesma posição e nem na mesma empresa. Mas certo de que as coisas que acontecem, acontecem sempre para um propósito melhor.
Uma das coisas que eu sempre acreditei é que se hoje a oportunidade que me dão é essa, talvez não seja a melhor, mas eu prefiro ir com isso e daqui para frente pensar o que eu posso construir estando lá e aproveitar as oportunidades que se dariam no Brasil. E foi justamente isso que aconteceu. Eu volto para o Brasil, continuo numa área de marketing e dois anos depois eu já passo para a área comercial e nunca mais saio.
Aí é o momento que você vê que você tem que tomar as decisões independente de se naquele momento não é melhor, capaz que não era melhor, mas eu tinha o objetivo de voltar, então eu priorizei muito a volta que é até a carreira nesse momento.
Eu sou uma pessoa muito focada naquilo que eu faço, que eu me proponho a fazer no meu dia a dia, porque eu acho que a gente tem que dar o melhor de si todos os dias. Por mais que existam dias melhores, dias piores, enfim.
Quando eu voltei foi isso, mas logo depois eu continuei crescendo e até que eu assumi a responsabilidade de todo o Brasil e hoje, como responsável pela América do Sul. E os desafios continuam, porque uma coisa é trabalhar o Brasil, outra coisa é trabalhar as outras regiões da América do Sul. É um mercado que sim, te desafia todos os dias, porque você acorda com uma prioridade, você vai dormir com 50 outras, mas que ao mesmo tempo, você está vendo que está deixando um legado, que existe um propósito, que realmente está se consolidando, as pessoas estão entendendo mais, os clientes estão viajando, mais empreendimentos aderindo ao programa, a RCI crescendo. Quando a gente olha para para trás e vê tudo o que foi construído, realmente é muito gratificante.
Por isso que eu falo que às vezes as pessoas falam: ‘Mas você tem mais de 20 anos na RCI’. Sim, tenho 25, mas tudo poderia ter acontecido em dois ou poderia não ter acontecido. É que estar nesse mercado te proporciona esse dinamismo e estar dentro da RCI te proporciona esses desafios constantes que faz você querer sempre mais e querer entregar o melhor e se desafiar todos os dias.
Você foi a primeira mulher a ocupar alguns espaços na RCI, Correto?
Na América do Sul, eu fui a primeira diretora, mas para o Brasil, a Carol foi a primeira diretora e eu fui a segunda.
Como você enxerga esse peso de ser a primeira da América do Sul, principalmente nessa cadeira e ter esse desafio maior além do Brasil, já que aí conta vários países?
Eu acho que o nosso mercado nos favorece, porque uma coisa é você trabalhar com férias, com propriedade compartilhada, com essa dinâmica de turismo, outra coisa seria um trabalho muito mais administrativo, burocrático e tudo.
Então, eu acho que primeiro o dinamismo do mercado em si nos favorece. Hoje temos um milhão de mulheres, graças a Deus, ocupando cadeiras de liderança e com muito sucesso, o mercado permite muito isso, abre várias portas. Temos muitos proprietários de hotéis que são mulheres, muitos CEOs, enfim.
Quando eu assumi a América do Sul, os desafios não foram nem tanto por eu ser a primeira diretora. Acho que foi mais porque até então nós trabalhávamos muito com o Brasil. E por mais que as coisas sejam parecidas, elas não são iguais. Por mais que o tipo do produto seja parecido, eles não são iguais. O desafio foi entender o mercado de fora e como a gente podia agregar valor, como fazer esses mercados também crescerem, como o Brasil está crescendo. Esse é o nosso grande desafio, porque são economias diferentes, mercados diferentes, pessoas diferentes. Agora, eu não diria nem por ser uma diretora, o desafio mesmo que a gente tem de fazer é deixar o mercado cada vez mais consolidado e fazer com que ele cresça, isso é o mais importante.
Você passou por vários setores dentro da RCI, pelo marketing, operação, depois desenvolvimento de negócios. Essas experiências são muito importantes, a gente fala muito de passar por essas etapas para construir a carreira e você conseguiu passar por vários vários setores.
Totalmente, sem sombra de dúvidas. Hoje, o conhecimento que eu tenho dentro da RCI é justamente porque eu passei por diversas áreas e tive a oportunidade de consolidar uma operação forte, que hoje a gente tem no Uruguai. Essa abertura, esse contato com outras áreas, enquanto eu estava no Uruguai, eu também passei dois meses no escritório do México. Essas coisas, de você aprender cada vez mais dentro da empresa que você trabalha, claro, te dá uma amplitude. Até no momento que eu estou hoje, indo fazer as negociações com os clientes, se ele me pergunta como os clientes dele aproveitam a RCI internamente, esse meu trabalho no marketing, me favorece fazer uma análise muito mais rápida, muito mais assertiva e ter essa facilidade de entender o comportamento do cliente dentro da RCI. E é isso que a gente faz aqui dentro.
Muitas pessoas acham ‘Ah, não, mas a sua área de desenvolvimento de negócios, então vocês só tem que buscar coisas novas’. Não, a gente tem uma área onde a gente precisa atender e ter esse relacionamento com os clientes atuais, onde a gente mostre que a gente realmente tá gerando valor para essa parceria e por outro lado ampliar o mercado com novos clientes empreendedores. Tudo soma nesse sentido, porque uma coisa é você entender como funciona não só a RCI como um todo, outra coisa é você entender como as coisas são feitas e o passo a passo das coisas que são feitas, te dá uma bagagem, você consegue conversar sobre qualquer assunto e entender quando as informações chegam para você.
Além desses desafios que você falou, você precisou sair da sua zona de conforto para crescer, teve alguma coisa específica?
Muitas vezes a gente tem que dar cinco passos para trás, mas teve a ocasião quando a Carol saiu, ela deixou a diretoria da empresa, eu assumi o Brasil, mas com outra pessoa também, que veio de fora e veio ficar aqui comigo, ele era muito mais América do Sul, mas também era meu chefe direto que eu reportava pelo Brasil. Com certeza, nessa hora, você pensa, você fala: ‘OK, mas se tem outra pessoa, eu não preciso ficar’. E o que eu falo que o nosso mercado, de alguma maneira, é um mercado muito integrado, é um mercado que a gente constrói relações realmente muito fortalecidas. Um dos meus clientes foi um dos polos fundamentais que falou para mim: ‘Não é momento de desespero, se concentra pensa, relaxa e dá um tempo para as coisas acontecerem’. E numa conversa informal, entendeu?
Mas até mesmo sem ele saber, ele foi uma das pessoas que naquele momento muito me ajudou para que eu pensasse, refletisse que OK, era mais um desafio que eu ia ter que enfrentar, teria que aprender algumas coisas antes de dar um passo maior e que tudo tem seu tempo, que era melhor eu assumir o Brasil e depois dar um passo maior.
Daqui a 10 anos, como é que você enxerga a indústria e qual o ensinamento que você aprendeu lá há 25 anos atrás e vai continuar por mais 25?
Eu sou realmente uma pessoa que eu não me vejo simplesmente parando de trabalhar ou não fazendo uma coisa que realmente goste. Então, eu pretendo sim continuar nessa indústria e continuar por muitos mais anos, porque quando a gente olha para trás e vê tudo que já aconteceu e vê como a indústria cresceu e vê tudo que a gente já entregou e como isso foi positivo na vida das pessoas. A propriedade compartilhada muda a vida das pessoas, ensina as pessoas a programarem, a viajarem, a fazer um monte de coisas que antes ela poderia fazer, mas a gente facilita e facilita bastante.
Então a gente realmente tem essa capacidade de mudança. Sempre quando você tem algo para agregar na vida de alguém, você realmente fica feliz com isso. Eu vejo que daqui para frente estamos caminhando para um mundo muito mais fácil, né? Eu acho que o pior já foi, essa parte construção. Mas existe, sim, um trabalho que ainda falta, que é esse trabalho de consolidação, de posicionamento, de credibilidade, que isso nunca tem que deixar de existir.
Começamos agora a receber mais estrangeiros dentro do Brasil, mas ainda muitos estrangeiros sul-americanos. Ou seja, o Brasil, ainda não não tem essa fortaleza de promover o Brasil para fora. Eu espero que daqui a 10 anos a gente receba muito mais turistas estrangeiros, porque a gente tem um país muito grande, muito rico, cheio de coisa linda para conhecer e que não se resume apenas três cidades.
Então, esse trabalho de consolidação, de credibilidade, de crescimento, esse olhar para o turista internacional e ver o que mais que a gente pode fazer para receber esse público aqui, sem sombra de dúvidas, acho que caminhamos para isso.
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