Artigos / Matérias
ESG avança nos loteamentos e começa a impactar valor de marca e financiamento
Certificações, financiamento e comportamento do consumidor impulsionam adoção de práticas sustentáveis nos empreendimentos
As práticas de ESG, sigla para práticas ambientais, sociais e de governança, vêm ganhando espaço no mercado de loteamentos e começam a influenciar desde o licenciamento ambiental até o acesso a crédito, a atração de investidores e o posicionamento dos empreendimentos. Embora especialistas avaliem que o setor ainda esteja em uma fase inicial de amadurecimento, o movimento já impacta a forma como novos produtos imobiliários vêm sendo concebidos no país.
O tema foi debatido durante um webinar promovido pela ADIT Brasil, com participação de Deni Lamb, CEO da Lotenet, Eduardo Mattos, sócio-diretor da Forte Desenvolvimento Sustentável, e Roberta Ribas, CEO da Ribas Consultoria Ambiental.
Na avaliação de Deni Lamb, a transformação do mercado acompanha uma mudança mais ampla no perfil do consumidor e na forma como as pessoas enxergam sustentabilidade e responsabilidade das empresas. “Eu entendo que existem determinados comportamentos de consumo que eles evoluem com a maturidade do consumidor em relação a determinadas pautas”.
Segundo Roberta Ribas, o avanço do ESG no segmento de loteamentos começou principalmente pelas exigências ligadas ao licenciamento ambiental, etapa obrigatória para que os empreendimentos saiam do papel. Para ela, esse processo acabou impulsionando uma visão mais ampla sobre o impacto social, infraestrutura e governança.

“O ambiental é tão destacado dentro dos conceitos de ESG, porque há uma obrigatoriedade legal. O ESG contempla práticas em que você vai linkar o ambiental, social e governança, mas hoje a obrigatoriedade legal para que o loteamento possa, efetivamente, sair do papel é o ambiental, especialmente o licenciamento ambiental”.
Roberta Ribas, CEO da Ribas Consultoria Ambiental.
Ribas destaca que houve uma mudança significativa no perfil dos loteadores nos últimos anos. “Então, é um movimento muito bonito que está acontecendo, que eu venho acompanhando ao longo desses anos trabalhando com loteamentos, daquele loteador que só queria o licenciamento para fazer o negócio andar até aquele loteador hoje, que pensa em uma certificação, que investe no seu empreendimento, que tem uma visão mais sistêmica do todo, que pensa ao longo prazo e que vê o ESG com uma geração de valor pr’aquele empreendimento”.
No entanto, Eduardo Mattos comenta que o mercado imobiliário brasileiro ainda está em um estágio inicial de maturidade em relação ao tema, mas a tendência é de crescimento das exigências.
“Eu acredito que o mercado imobiliário está em um processo inicial de amadurecimento. Acho que primeiro está afetando a definição do produto – agregar conceitos de bairros e minicidades -, mas eu acho que é muito incipiente ainda nesse momento”, relata.
Ele lembra que o conceito de sustentabilidade evoluiu nos últimos anos e passou a incorporar também questões sociais e de governança. “Quando você olha companhias listadas na bolsa, essas companhias já têm a obrigatoriedade de ter esse relatório, ter metas estabelecidas, e se ela não cumpre essas metas, o preço da ação cai”, explica.
Certificações e a influência em financiamentos
Ainda dentro da abrangência ambiental, os especialistas apontaram que as certificações ambientais vêm se consolidando como uma ferramenta importante para reduzir riscos e ampliar o acesso a crédito.
Mattos citou como exemplo o crescimento da certificação LEED em edifícios corporativos e empreendimentos logísticos, impulsionado principalmente por multinacionais que exigem padrões sustentáveis em toda a cadeia de operação. Segundo ele, em muitos casos o retorno financeiro já compensa o investimento no processo de certificação.

“Tenho clientes do setor residencial vertical que estão fazendo o processo inteiro de certificação simplesmente pelo benefício no banco. Antes ele teria que andar com 15% da obra com capital próprio para conseguir o dinheiro do banco. Se o empreendimento estiver em processo de certificação, só precisa de 1%, porque certificado pro banco representa mais auditoria e menos risco”.
Eduardo Mattos, sócio-diretor da Forte Desenvolvimento Sustentável
Na avaliação de Roberta Ribas, a redução de riscos é justamente um dos principais ganhos para os loteadores.
“Porque a partir do momento que você tem boas práticas implantadas, você tem uma gestão de risco […] existe um ganho muito grande falando a longo prazo para quem vai comprar e pro loteador que está vendendo esse empreendimento”.
Além da relação com financiamento, as certificações também passaram a ser utilizadas como ferramenta de posicionamento de marca. Mattos citou o case do Vivapark, da Vokkan, em Porto Belo (SC), primeiro bairro planejado do mundo a conquistar a certificação LEED Platinum.
“Na época eles trabalharam a comunicação de uma forma muito legal. Estava próximo às Olimpíadas, então eles usaram um slogan fazendo uma associação com o evento e espalharam outdoors por toda a região. Foi um case de posicionamento de marca bem interessante”, disse
O bairro planejado, inclusive, será um dos visitados durante a Missão Técnica de Bairros Planejados de Santa Catarina, que acontecerá nos dias 26 e 27 de outubro, e conhecerá projetos de referência em Florianópolis e Porto Belo. A programação inclui, ainda, visitas à Cidade Pedra Branca, Jurerê In e All Resort.
Outro exemplo citado foi o PARC Autódromo, em Curitiba, empreendimento que conquistou reconhecimento internacional pelas soluções urbanísticas e sustentáveis implementadas no projeto.
“Então, a gente viu um projeto de muita qualidade prevendo uma série de iniciativas de áreas verdes, conectividade, transportes públicos e outros. A partir disso, fomos buscando pontuações e quando concluímos essa análise vimos que havia um potencial para se tornar a maior pontuação do mundo. E eu levei isso pra BairrU, que comprou muito a ideia, porque tinha muito a ver com o posicionamento deles para Curitiba. E eles conquistaram a maior pontuação que culminou no título de bairro mais sustentável do mundo”, relatou Mattos.
Relação do consumidor e as mudanças no setor
Para Deni Lamb, a consolidação das práticas ESG também está diretamente ligada às mudanças no comportamento do consumidor, especialmente entre as novas gerações. “Por exemplo, a gente comprava as coisas sem observar quem estava fabricando, quais eram os materiais utilizados, se eram recicláveis e etc. Mas a gente observa uma geração que está vindo que está muito preocupada com essas pautas de sustentabilidade e boas práticas sociais das empresas”, comenta
Na visão de Roberta Ribas, o ESG não deve ser encarado como um modismo, principalmente diante das mudanças regulatórias e da pressão crescente da sociedade por mais transparência. “As pessoas não estão mais aceitando qualquer coisa, não estão mais aceitando comprar algo que não tenha uma referência, que ela não saiba de onde vem e para onde vai”, reforça.
Deni Lamb avalia que o mercado de loteamentos possui uma oportunidade relevante para contribuir com cidades mais planejadas e com melhor qualidade urbana, especialmente diante dos problemas históricos de infraestrutura no país.

“A maioria das cidades brasileiras ainda não trazem essa ambiência urbana que seja gostosa, prazerosa, para a população. São cidades que foram construídas sem a infraestrutura adequada”.
Deni Lamb, CEO da Lotenet.
Segundo ele, projetos urbanos mais qualificados acabam se tornando um diferencial competitivo importante. “Quando você desenvolve um empreendimento que seja um loteamento, mas que traga algumas coisas legais, as pessoas compram aquilo, porque elas querem ter uma melhor qualidade de vida”.
No entanto, apesar do avanço do tema, os especialistas concordam que ainda existe um desafio cultural importante dentro do setor. Para Roberta Ribas, a principal barreira ainda é convencer os próprios empreendedores sobre a importância dessas práticas. “A maior dificuldade é o loteador, o empreendedor, entender a importância de ter essas boas práticas, mudar a cultura da empresa como um todo”, finaliza.
- Graziela França – head de Conteúdo da ADIT Brasil
Mais notícias
-
Balneário Camboriú recebe comitiva da ADIT Brasil em nova edição da Missão Técnica
-
ADIT Brasil realiza nova edição do curso de Metodologia Charrette em São Paulo
-
A visão de Chieko Aoki, CEO da Blue Tree Hotels, para a hospitalidade e o futuro do mercado hoteleiro
-
IMOBTUR vai discutir tendências de hospitalidade e imobiliário-turísticas no dia 24 de novembro, em São Paulo