Artigos / Matérias
Artigo – Recorde da intenção de compra e a nova equação da moradia: a ânsia em ter e o custo de renunciar
Crédito: Freepik.
Por Fábio Tadeu Araújo – CEO da Brain Inteligência Estratégica
Um dado não deve ser lido apenas pelo número em si e mais pelas perguntas que passam a impor ao setor. A intenção de compra de imóveis no Brasil chegou, no segundo trimestre de 2026, ao maior patamar já registrado pela série histórica: 52% dos brasileiros afirmaram que pretendem adquirir um imóvel nos próximos meses.
À primeira vista, o número indica que mais pessoas têm desejo de comprar um imóvel, mas querer não é o mesmo que concretizar. A intenção de compra revela desejo, necessidade, planejamento, vontade de formar um patrimônio e, muitas vezes, uma reorganização silenciosa da vida familiar. O imóvel continua ocupando um lugar muito particular no imaginário brasileiro: é abrigo, segurança, conquista e futuro materializado com endereço.
O ponto mais relevante é que esse recorde acontece em um ambiente em que comprar está longe de ser uma decisão simples. Juros elevados, crédito mais seletivo, renda pressionada, preços altos e maior necessidade de entrada continuam compondo a equação. Ainda assim, o desejo de compra não apenas permanece, como cresce, todavia precisa ser interpretado com mais cuidado.
Uma das tentações mais perigosas do setor é transformar dificuldades específicas em diagnóstico geral do mercado. Quando um projeto desacelera, quando uma praça responde abaixo do esperado ou quando um produto perde velocidade, é comum atribuir o problema exclusivamente ao ambiente macroeconômico. É claro que tudo isso pesa, mas nem sempre explica tudo.
O novo recorde de intenção de compra reforça justamente essa necessidade. Se mais da metade dos entrevistados declara intenção de adquirir um imóvel, não estamos diante de um mercado sem desejo, mas que atravessa uma jornada mais complexa até se transformar em decisão.
A maior parte dos consumidores que manifesta a intenção de compra ainda está nas fases iniciais da jornada. Muitos ainda não começaram a busca, outros pesquisam pela internet e uma parcela menor já realiza visitas presenciais. Entre uma coisa e outra existe um percurso feito de orçamento, crédito, comparação, localização, confiança, timing e percepção de valor.
O consumidor não deixou de querer comprar, mas passou a perguntar com mais rigor que tipo de compra faz sentido. Comprar onde? Com qual metragem? Em qual faixa de preço? Com que impacto no orçamento? Em que condição de financiamento? E, talvez, principalmente, com quais renúncias?
Estas questões se estendem não apenas para a compra de um imóvel, mas conjuntamente para o aluguel, que vem ganhando força nos últimos meses. A locação passou a crescer justamente porque, em muitos casos, ela resolve melhor o presente quando a compra exige abrir mão de localização, espaço ou qualidade de vida.
De 2023 até o começo de 2025, a intenção de locação girava em torno de 16%. Depois, saltou para 23% no 3º trimestre de 2025 e chegou a 21% no 1º trimestre de 2026. Ou seja, mesmo com alguma oscilação, o patamar recente está acima daquele observado anteriormente.
E esse crescimento não aparece apenas em uma faixa de renda específica. A crescente intenção de locação dos últimos trimestres analisados ocorreu em todas as faixas de renda. Mas há um detalhe relevante: os grupos que mais cresceram foram justamente os de renda entre R$ 10 mil e R$ 20 mil e, mais acentuadamente, acima de R$ 20 mil.
Se a locação estivesse crescendo apenas nas faixas de menor renda, a análise poderia ser restrita à falta de acesso à compra. Entretanto, quando o movimento também avança entre as rendas mais altas, estamos diante de uma mudança na forma como o consumidor equilibra propriedade, localização, metragem e estilo de vida. Ele pode:
- comprar um imóvel com o tamanho que deseja, mas morando mais longe;
- comprar um imóvel na localização que deseja, mas morando mais apertado;
- ou morar em um imóvel do tamanho e localização que deseja, mas pagando aluguel.
Um número crescente de consumidores parece estar se aproximando da terceira alternativa. Não porque tenha abandonado o desejo de comprar e o recorde da intenção mostra isso, contudo passou a avaliar com mais clareza o custo total dessa decisão. E o custo, aqui, envolve muito mais do que valores tangíveis; envolve tempo de deslocamento, acesso a serviços, proximidade da família, rotina de trabalho, lazer, saúde mental e capacidade de manter uma vida minimamente equilibrada depois da compra.
E esse é um ponto importante para ser analisado pelo setor: a alta de intenção de compra não fala somente sobre demanda; fala também sobre o estágio em que essa demanda se encontra. Quando observamos a busca ativa por imóveis, o dado mostra uma diferença relevante entre desejar comprar e já estar, de fato, em movimento para comprar.
Este novo recorde revela um mercado com desejo, mas não necessariamente com conversão automática. A questão central é entender que o consumidor começou a perceber que, em alguns casos, comprar significa deixar de lado mais viagens, mais passeios com os filhos e amigos, mais compras em geral, enfim, tudo que é entendido como maior bem-estar.
É nessa distância entre intenção e decisão que o mercado imobiliário encontra, hoje, seu principal desafio: transformar o desejo em compra viável, sem ignorar que o consumidor continua querendo comprar, mas está cada vez menos disposto a comprar fazendo renúncias para isso.

Fábio Tadeu de Araújo é CEO da Brain Inteligência Estratégica. Graduado em Ciências Econômicas e pós-graduado em Economia Internacional pela FAE Business School, possui MBA em Gestão de Projetos pelo IBMEC. Fábio também é mestre em Organizações e Desenvolvimento e mestre e doutorando em Gestão Urbana pela PUC-PR. É professor universitário de diversas instituições há mais de 15 anos.

Mais notícias
-
ADIT Invest 2026 reúne mercado financeiro e imobiliário em Vitória para discutir novos caminhos do capital
-
Regeneração urbana transforma áreas centrais em novos espaços de moradia e negócios
-
Artigo – O gap do equity
-
Programação do ADIT Invest 2026 reúne RBR Asset, Santander, Pátria Investimentos e outras lideranças do mercado financeiro