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Artigo – O gap do equity
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O ciclo de juros virou primeiro. O mercado imobiliário ainda não precificou o que isso significa para quem tem capital, e para quem gere patrimônio de família.
Por Dado Prisco – CEO da Proper · sócio fundador da HPP27 e da RTRĒES
Por quase três anos, o investidor brasileiro foi treinado para ser credor. A 15% de Selic, a maior taxa nominal em quase duas décadas, não fazia sentido correr risco de dono. Fazia sentido emprestar. Todo o Mercado Imobiliário coube, nesse período, dentro de uma cesta de crédito: CRI, crédito privado, papel indexado ao CDI etc. O imóvel, o maior e mais antigo ativo do mundo, virou lastro de dívida.
O ciclo virou. E o equity, que quase ninguém construiu nesses anos, voltou a ser a pergunta.
O juro virou antes de todo mundo
A Selic subiu de 13,25% em janeiro de 2025 para 15% em junho, e ficou parada no topo por quase um ano. Em 2026 começou a ceder: 14,50% em abril, 14,25% em junho. Não é uma queda dramática. É uma inflexão. E inflexão de juro é o gatilho mais antigo do mercado de capitais, porque ela não muda o retorno de um ativo isolado, ela muda o custo de oportunidade de todos ao mesmo tempo.

Quando o CDI cede, o capital estacionado em renda fixa começa a procurar risco com propósito, e não salta direto para o topo da curva. Ele sobe um degrau de cada vez. Depois do caixa e dos títulos, o próximo degrau de risco não são as ações nem os alternativos: é o imóvel. O real estate é o primeiro risco de dono que o capital conservador aceita correr, o que explica por que, historicamente, boa parte do dinheiro que sai da renda fixa procura o imóvel antes de qualquer outra coisa. A diferença deste ciclo é que esse capital encontra um mercado imobiliário que passou os últimos anos se estruturando quase que somente por dívida. A oferta de equity ficou para trás.

O funding imobiliário ainda é dívida
Os números do primeiro trimestre de 2026 são o retrato dessa assimetria. O mercado de crédito privado brasileiro emitiu R$ 192,4 bilhões, alta de 22,5% sobre o mesmo período de 2025. Os fundos imobiliários, veículo de equity mais popular do país, captaram R$ 22 bilhões. Equity representa cerca de 11% do que a dívida movimentou. Para cada real de sócio, o mercado imobiliário levantou quase nove de credor.

| +70%Captação de equity via FIIs, 1T26 ante 1T25 (R$ 12,9 bi → R$ 22 bi) | +22,5%Crescimento das emissões de crédito privado no mesmo período | 3,13 miInvestidores em fundos imobiliários na B3, recorde em mar/2026 |
Há um detalhe que muda a leitura. Enquanto o crédito cresceu 22,5%, a captação de equity via FIIs cresceu 70% na mesma janela, de R$ 12,9 bilhões para R$ 22 bilhões. O equity é a menor fatia e, ao mesmo tempo, a que mais acelera. É onde o ciclo está começando, não onde ele já aconteceu.
A explicação para o atraso não é falta de apetite. É que dívida é fácil de precificar e equity não. Um CRI tem taxa, prazo, garantia e um fluxo contratado. Um ativo imobiliário de equity tem vacância, reprecificação, liquidez incerta e, o ponto mais incômodo, nenhum benchmark de mercado que o investidor consulte antes de dormir. O credor sabe quanto rende. O dono, na maioria dos casos, acha que sabe.
O family office é o veículo natural
Existe um investidor desenhado para atravessar exatamente esse tipo de assimetria: o Family Office. Ele tem capital mais paciente, mandato de longo prazo e, quase sempre, um estoque imobiliário herdado que já está no balanço, ele já conhece e tem conforto com este perfil de equity. O problema é que esse estoque, na imensa maioria dos casos, é gerido como coleção de escrituras, não como classe de ativo.

O mundo já se moveu. Em 2016, o real estate representava cerca de 20% das carteiras dos family offices globais, quase todo em imóvel direto e local. Em 2025, essa fatia caiu para algo entre 12% e 15%. A leitura preguiçosa diz que o imóvel perdeu relevância. A leitura correta é o contrário: o family office parou de comprar tijolo e começou a alocar estratégia. Saiu da propriedade direta para fundos de private equity imobiliário, club deals, coinvestimentos e teses pautadas em dados, operando com o mesmo instrumental analítico de um gestor institucional de liquidez.
E isso não é excentricidade de nicho. No outro extremo da escala, o capital institucional mais sofisticado do mundo faz a mesma leitura há mais de uma década. A Blackstone transformou a compra de casas nos Estados Unidos numa operação de portfólio: esteve por trás da Invitation Homes, que se tornou a maior operadora de casas residenciais para locação do país, saiu do negócio em 2019 e voltou depois da pandemia. Hoje está entre os três maiores proprietários residenciais americanos, com mais de 60 mil casas geridas como ativo financeiro. Do family office ao maior gestor do planeta, o que muda não é a tese. É a escala.
O Brasil está no início dessa transição. O multi family office brasileiro é quem tem, ao mesmo tempo, o ativo ilíquido no balanço e o mandato para liderar o equity que falta ao mercado.
Ele não precisa descobrir o real estate. Precisa reprocessar o que já tem, com a disciplina que aplica ao resto da carteira.
O que falta não é retorno, é benchmark
Aqui está o dado que mais me chama atenção, porque desmonta a premissa de que imóvel é o ativo “pobre” da carteira. Entre 2010 e 2025, um portfólio imobiliário real, bem gerido, valorizou cerca de 9,9% ao ano. Em quinze anos, o capital multiplicou por 4,1 vezes, uma valorização acumulada de aproximadamente 310%, e isso sem somar um centavo de renda de aluguel. O CDI, o tal do risco zero que travou o país em modo credor, acumulou perto de 300%. O Ibovespa, cerca de 130%. O imóvel bateu a renda fixa e atropelou a bolsa local, com uma fração da volatilidade percebida.

Sendo honesto e transparente com os meus dados, porque dado que só serve ao argumento não se sustenta: o S&P 500 em dólar valorizou cerca de 440% no período e bateu os demais indicadores e o portfólio imobiliário exemplificado nesta análise. Câmbio e o maior mercado de ações do mundo cobram esse prêmio. Mas dentro do Brasil, o ativo que o investidor tratou como “ilíquido e alternativo” foi, silenciosamente, competitivo com o benchmark que ele considerava intocável.
O ponto não é que imóvel rende mais. É que quase ninguém mede. O investidor tem um app de banco para acompanhar cada centavo das suas ações e recebe um extrato mensal do gestor de renda fixa. O imóvel, muitas vezes o maior ativo do portfólio, vive numa planilha atualizada uma vez por ano, sem comparação, sem atribuição de performance, sem governança.
Você não tem imóveis. Você tem um portfólio que ninguém está medindo.
O novo ciclo do equity imobiliário não vai ser vencido por quem comprar mais barato. Vai ser vencido por quem medir melhor. Equity exige o que a dívida entregava de graça: um número em que confiar. Benchmark, atribuição de resultado e governança não são sofisticação de gestor. São a condição para o capital paciente voltar a ser dono, e não só credor.
Do credor ao dono
O ciclo já virou no juro. O equity imobiliário vai voltar ao centro da mesa com ou sem cada um de nós, e o gap entre a dívida que sobra e o equity que falta vai ser preenchido por alguém. Para quem carrega patrimônio imobiliário, a escolha que resta não é onde arrancar mais um ponto de retorno. É de posição. Nos últimos anos, ser credor foi a resposta fácil. O novo ciclo devolve a pergunta que a renda fixa deixou a gente adiar: você quer seguir emprestando contra o imóvel dos outros, ou ser dono do seu?
Fontes
Banco Central do Brasil, decisões do Copom (2025–2026) · Bloxs, alocação imobiliária 1T2026 · B3, recorde de investidores em FIIs (mar/2026) · UBS / Campden Wealth e UBS Global Family Office Report (2016, 2025) · análise Proper de valorização 2010–2025 (portfólio real anonimizado).

Luiz Eduardo Prisco Paraiso · Dado Prisco
Dado Prisco é fundador da Proper, plataforma de gestão e inteligência de dados que trata imóveis como ativos financeiros, permitindo acompanhar sua performance e compará-la aos principais indicadores do mercado. A empresa nasceu de uma necessidade identificada na transformação da administradora de bens da sua família no family office HPP27. É também sócio fundador da RTRĒES, onde desenvolve projetos que integram capital, mercado e tecnologia, entre eles o Parko, empreendimento de moradia multigeracional lançado em Florianópolis. Estudou em Lausanne, na Suíça, e em Londres, e desenvolveu experiência em uma construtora familiar, nas frentes de novos negócios e estratégia. Hoje concentra sua atuação no mercado de capitais, na gestão de ativos imobiliários e em investimentos em startups de tecnologia.

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