Integração de modais pode representar uma solução para os problemas de trânsito e trazer mais qualidade de vida para a população

 

Qual o melhor meio de transporte dentro das cidades? Carro, metrô, ônibus, bicicleta? Isso vai depender de onde você mora. Mas uma coisa é certa, eles não precisam competir um com o outro. Eles podem (e devem) ser complementares, o que os especialistas chamam de integração entre os modais. Aí está uma tendência mundial que o Brasil precisa levar mais a sério.

O tempo gasto no trânsito é hoje um dos principais transtornos enfrentados pela população nas cidades brasileiras. Em São Paulo, a maior país, uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2016 mostrou que os paulistanos passaram, em média, 2h58min por dia parados no trânsito, tanto no transporte público quanto nos carros. O tempo levando em conta somente o transporte público também é alto. Um levantamento do aplicativo Moovit apontou que na capital paulista as pessoas ficam, em média, 93 minutos dentro de ônibus, trens ou metrô para ir e voltar do trabalho. Em cidades europeias, como Madrid e Berlim, esse tempo cai para 61 minutos.

A situação do país em mobilidade urbana é bastante complexa. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), nas nove principais regiões metropolitanas houve um aumento de 2,8% ao ano no número de passageiros transportados por ônibus, entre outubro de 2004 e outubro de 2014. No mesmo período, as frotas de automóveis e de motocicletas também aumentaram 6,8% e 12,2% ao ano, respectivamente.

Combinado a isso, o volume de deslocamentos por bicicletas no país dobrou: foi de 1,3 bilhão em 2004 para 2,6 bilhões em 2014, segundo levantamento feito no ano passado pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Os números dão uma ideia da diversidade de modais disponíveis nas cidades. Apesar disso, a conexão entre eles não é sistematizada, o que dificulta o deslocamento da população.

“É fundamental você ter uma infraestrutura adequada para que esses modais funcionem, mas o mais importante é que você tenha integração entre eles. Não é todo mundo que tem uma estação de metrô a 500 metros de casa, mas se essa pessoa conseguir chegar até o metrô facilmente, o problema já melhora”, observa Cláudio Bernardes, presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP.

Cidades precisam saber os destinos

Por onde começar os processos de integração? Na prática, cada cidade tem suas próprias características, e precisa encontrar soluções em cima delas. Um passo inicial são as pesquisas de origem-destino, que permitem verificar de onde as pessoas saem e para onde vão todos os dias. Com isso, é possível começar um planejamento para que os modais sejam utilizados de forma mais confortável e eficiente.

“Em algumas cidades, existe a possibilidade de implantar ciclovias conectadas à estação do metrô, por exemplo. A cidade tem que fazer um planejamento para entender o que tem de alternativas de transporte, e como elas podem acontecer de uma forma mais fácil”, explica Bernardes.

A conexão metrô-bicicleta é muita usada na Europa e em países como Estados Unidos e Canadá. Por aqui, há algumas iniciativas, mas ainda tímidas e insuficientes para suprir a demanda diária de transporte.

Planejamento urbano também entra na conta

Na região metropolitana de São Paulo, o índice de mobilidade (número de viagens que cada pessoa faz por dia) aumentou 12% nos últimos cinco anos. No mesmo período, a população cresceu 2%. Isso significa que as pessoas estão se movimentando mais, o que exige mudanças. “Se você não tem dinheiro para investir o valor necessário para ter uma infraestrutura de transporte, a alternativa é fazer com que as pessoas se desloquem menos”, observa Bernardes.

Por isso, é importante entrar na conta da mobilidade uma política adequada de desenvolvimento e planejamento urbano. Os novos empreendimentos, por exemplo, devem considerar as necessidades de deslocamento da população. O local de moradia deve ser próximo ao local de trabalho e aos espaços de lazer. Nos Estados Unidos já existem casos de empreendimentos imobiliários que são planejados ao longo de ciclovias para facilitar o acesso dos moradores.

Por isso, a combinação entre planejamento urbano e integração de modais é uma das saídas para melhorar os problemas de trânsito e a qualidade de vida nas cidades. Mas, para isso, os governos precisam investir. Um relatório do 12º Congresso Brasileiro da Construção apontou que até 2022 são necessários R$ 13,4 bilhões anuais para projetos em metrôs, trens urbanos, transporte rápido por ônibus (BRT), veículo leve sobre trilhos (VLT), ciclofaixas e outras soluções de transporte público. Ou seja, o Brasil tem muito trabalho pela frente.

A mobilidade urbana será um dos temas discutidos nos próximos meses no projeto Em Movimento, na TV Globo e no G1.

Por Em Movimento, via G1